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Clima e dólar estimulam maior produção de açúcar do que etanol -- mesmo com CBIO em alta
Publicado em 23/10/2020 às 09h27
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Até a primeira semana de outubro, a produção de etanol registrava uma queda de 7,5% em comparação com o mesmo período do ano passado, diante de uma retração de mais de 15% no consumo.

O setor atravessa um ano em que houve a combinação dos efeitos da pandemia -- redução da demanda --, com clima mais seco, que acelerou a safra, e o incentivo da escalada do dólar para produção de açúcar.

É também o primeiro ano de operacionalização RenovaBio, que remunera os produtores de biocombustível por meio da emissão e dos créditos de carbono CBIOs, que dobraram de valor em dois meses, para um patamar de R$ 40.

"Ainda estamos falando de um valor de CBIO que não faz com que o setor migre sua produção do açúcar para o etanol. Há um caminho longo a percorrer em termos de preço e estruturas de regulação", afirma Haroldo Torres, economista e professor do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) da Esalq/USP.

Torres é um dos responsáveis pelo estudo que embasou a proposta da BR Distribuidora, maior do país em participação de mercado, para uma redução mais agressiva das metas do RenovaBio, começando em 8,5 milhões de CBIOs, em 2020 -- a original era de 29 milhões e prevaleceu o plano do Ministério de Minas e Energia, de redução para 14,6 milhões.

Nesta entrevista ao jornalista Gabriel Chiappini, para a epbr, o economista analisa a situação do setor de etanol, do RenovaBio e as projeções para o mercado sucroenergético e de CBIOs.


Em que momento do RenovaBio estamos?

O mercado começou a ganhar tração. O preço médio já passa dos R$ 40 -- dobrando de valor em menos de dois meses --, o que também abre uma primeira precaução: um ativo que tem uma valorização e volatilidade em curto espaço de tempo.

Entretanto, ainda estamos falando de um valor de CBIO que não faz com que o setor migre sua produção do açúcar para o etanol. Há um caminho longo a percorrer em termos de preço e estruturas de regulação.


As distribuidoras estão deixando para cumprir suas metas e adquirir CBIOS na última hora?

Dos 10,5 milhões CBIOs depositados, cerca de 3,2 milhões foram adquiridos pelas distribuidoras, e apenas 50 mil pela parte não obrigada. São as distribuidoras que estão movimentando de fato este mercado.

Temos ainda uma insegurança. Precisamos nos preocupar com as regras do jogo, garantindo um mercado de previsibilidade e transparência, para que não tenhamos que fixar preço teto e preço mínimo.

Para as distribuidoras, as regras tributárias não estão claras, porque não se sabe se pode deduzir os custos de CBIO no [cálculo do] Lucro Antes do Imposto de Renda.

Estão aprendendo e entendendo este mercado. Não podemos olhar para metas tão agressivas num curto prazo.


E como fica o cumprimento das metas do RenovaBio a partir do ano que vem?

No curto prazo, se todas as usinas emitirem e colocarem à venda os CBIOs relacionados à sua produção em 2020, teríamos uma oferta de 17,2 milhões, com uma meta de 14 milhões. Isto é, teríamos excesso de oferta, levando a uma pressão negativa sobre o preço do ativo.

Para 2021 e 2022, o mesmo cenário. No curto prazo, teríamos uma oferta maior que a demanda da meta.

No longo prazo, essa situação se inverte. A partir de 2025, se as metas se mantiverem, teremos escassez da oferta em relação à demanda.


Será necessário algum controle para evitar distorções na comercialização?

Existia uma preocupação de ter squeeze, ou manipulação. A parte obrigada é uma parte concentrada, quatro distribuidoras que têm 70% do mercado de combustível no Brasil e têm poder de criar movimentos abruptos de mercado, porém não acredito que o fariam.

À medida que se cria um ambiente muito regulado e impeditivo, também se afasta investidores externos. Temos que atraí-los para poder deixar de ter parte obrigada, e a própria sociedade valorizar esse título.


Como fica para as distribuidoras menores?

Temos um volume muito grande de pequenas distribuidoras, mais de 200. Elas terão custo de transação e terão que se organizar para criar uma área de inteligência de mercado em comum e tentar diluir os custos que enfrentarão no programa.

Terão que criar instrumentos de compra, entender o mercado, formação de preço e o repasse para o combustível.

Vão precisar formar parcerias, embora eu não tenha visto esse movimento acontecer. Mas é melhor elas se organizarem coletivamente do que criar um mercado de privilégios, ou uma diferenciação de preços.


Como está sendo o ano de 2020 para o setor sucroenergético?

Em um primeiro cenário, o volume de vendas vem caindo numa velocidade maior que a produção, o que resultou num aumento do estoque. Em segundo, foi um ano seco para o setor. A falta de chuvas levou a uma safra acelerada. Segundo dados da Unica [associação do setor], a produção estava cerca de 5,3% acima do mesmo período do ano passado.


E os preços?

Vamos consumir esse estoque numa velocidade maior. A entressafra fará uma pressão positiva sobre os preços, principalmente do anidro. Exceto que haja uma segunda onda da pandemia, ou atraso da vacina, o que levaria ao arrefecimento da recuperação econômica.

O anidro vem sendo negociado com um prêmio de 20% em relação ao hidratado. Algumas usinas estão desidratando o hidratado. O anidro tende a ter mais competitividade.


Qual a previsão para o mercado de etanol no primeiro semestre de 2021?

Com a falta de chuva, muitas usinas vão atrasar o início do plantio da próxima safra, o que significa que teremos uma entressafra longa, justamente quando a economia tenderá a ter uma recuperação.


O acordo de importação com tarifa zero de etanol dos EUA pode afetar esse cenário?

O etanol importado só vai ter sentido se o produto dos EUA tiver um preço mais competitivo que o etanol doméstico.

Com esse nível da taxa de câmbio, a operação deixou de ser atraente como já foi. Uma alíquota de proteção não terá efetividade alguma. Na minha visão, o câmbio já é uma barreira natural.
Fonte: Epbr
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