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Investidor estrangeiro vai perder bonde se não vier rápido para o Brasil, diz Abilio
Publicado em 14/01/2020 às 08h04
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Otimista com as perspectivas para a economia brasileira, o empresário Abilio Diniz diz não ter dúvidas de que o investidor estrangeiro vai chegar, não importa quando. Mas, se demorar demais, perderá o momento de câmbio favorável.

"O Brasil está muito barato. Está ´for sale´, como já disse uns anos atrás. Eles vão ter de vir porque não têm alternativa no mundo. Quem não vier rápido vai perder o bonde. Em vez de pegar esse dólar valorizado contra o real, vai pegar o momento do real já mais valorizado."

Para Abilio, o crescimento brasileiro ainda é tímido, mas tem potencial de superar a média mundial. E, apesar do desemprego, a queda a inflação já leva à população a sensação de tempos melhores.

O que justifica a avaliação positiva que o empresário faz do primeiro ano de governo é a condução da economia, que ele considera séria e competente. Ele evita se posicionar sobre polêmicas como a CPMF, alvo de preconceito, em sua opinião.

Após a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, Abilio enviou uma carta aberta ao presidente, recomendando que ele combatesse a divisão no país. Um ano depois, o empresário vê o Brasil polarizado pela esquerda e pela direita, mas não acredita que a liberdade do ex-presidente Lula tenha piorado o clima de extremos.

"Não acho que a saída dele da prisão movimentou muita coisa. Ele tem aparecido, mas acho que é pouco", afirma.

O empresário relembra que apoiou a eleição da ex-presidente Dilma Rousseff a pedido de Lula, mas diz que, depois, se afastou sem criticar publicamente para não atrapalhar. Segundo ele, o apoio a Temer também aconteceu, assim como agora.

"O meu partido é o Brasil. Se entra o Lula e tenta fazer coisas boas para o país, eu tenho que apoiar. Se entra a Dilma, tenho que apoiar. Quando veio o Temer, e começou a fazer coisas importantes, apoiei. Não sou ligado a partido nenhum. Eu amo o meu país."


Pergunta - Qual é a avaliação do primeiro ano do governo?

Abilio Diniz - Minha avaliação é altamente positiva, principalmente pelo que está acontecendo com a economia. Esse é o fundamental. Temos que medir um governo pelo que ele faz pelo país e pelo povo. Não há dúvida de que os brasileiros estão melhores do que estavam há um ano. Não estão no ideal, mas estão melhores.

Há uma retomada ainda tímida do emprego. Está havendo um crescimento ainda tímido da economia, mas está havendo. Toda hora há revisão das projeções. O BC elevou para 2,2%. É um crescimento razoável. A média da economia mundial cresce a 2,9%. Se as coisas continuarem como estão, de repente, essa estimativa pode ir para 2,5% e até ultrapassar a média mundial.

Do jeito que vínhamos desde 2014, com sinais ruins desde 2013, havia um abatimento da população e dos empresários, quase uma depressão das pessoas. Hoje o clima é outro.


Euforia?

AD - Eu não digo euforia, mas as pessoas estão olhando para o horizonte com mais otimismo e acreditando. Quando se fala de possibilidade de pagamento do país, o povo não entende disso. Isso não afeta o povo, mas ele sente uma coisa importante: a inflação baixa. E, pelo lado dos empresários, que são o motor da economia, acho que está bem melhor.


E o juro baixo?

AD - O juro mais baixo faz com que eles sintam mais confiança. Os economistas dizem que o juro baixo veio para ficar. Não só o Paulo Guedes. O Ilan Goldfajn [ex-presidente do BC] disse outro dia que começou com ele já no governo Temer. Verdade. Evidentemente, isso dá aos investidores brasileiros a confiança.

Essa retomada da economia está vindo por onde? Pelo governo? Pelo setor público? Em hipótese alguma. Está vindo pelo setor privado. Uma parte é investimento que está sendo feito, ainda tímido, e a outra é consumo.


O sr. é a favor da liberação do FGTS?

AD - Sou. Em determinados momentos, tem que usar as armas que tem para ativar um pouco mais a economia. Mas tem efeito colateral? Tem que olhar o lucro e o prejuízo. Eu achei que naquele momento era importante para reativar um pouco. Tem setores que não crescem e outros que crescem sempre. Está faltando um pouco mais de investimento externo. Ele vai vir.


Quando?

AD - Nem importa o quando. É que não tem chance. Vai vir, porque tem pouca possibilidade no mundo. Embora a economia americana esteja dando confiança aos investidores, fora dos EUA não tem muita oportunidade. A Europa, estagnada, não tem muita chance de investimento.


E o câmbio?

AD - O real bem desvalorizado, tem que olhar um pouco para isso. O que está ocorrendo? Nós tínhamos juros altamente positivos. O juro no mundo é negativo.

Tem banco na Europa em que, para você fazer um depósito de 30 anos, te cobram para você guardar seu dinheiro. Não tem muita alternativa. Tem que vir. O Brasil tinha juro real positivo bem maior que os EUA, o pessoal vinha. Entrava aquele fluxo de aplicação exclusivamente financeira. O cara vinha. O juro baixou, ele saiu. Deu uma certa insegurança.


Explica a insegurança?

AD - Mais do que insegurança, foram juros. O cara vê 5% de juro acima da inflação, vem. Se deu uma certa insegurança, a atração do juro não tinha, os caras saem. Além disso, teve uma época no segundo semestre em que houve muitas remessas das empresas de fora que estão aqui no Brasil. Então, o real se desvalorizou. Isso é resultado de um fundamento macroeconômico? Não. Não tem fundamento macroeconômico para colocar a R$ 4,20, como chegou a acontecer.

O Brasil neste momento a R$ 4,06 [cotação do dólar no dia da entrevista, no fim de dezembro] está muito barato. O Brasil está "for sale", como eu já disse uma vez, uns anos atrás. Eles vão ter que vir porque não têm alternativa no mundo. Quem não vier rápido vai perder o bonde. Em vez de pegar esse dólar valorizado contra o real, vai pegar o momento do real já mais valorizado. Vai perder essa grande oportunidade do câmbio. E eles vão vir. Não tenho dúvida. Que venham rápido.


O que está por vir?

AD - Novos regulamentos para infraestrutura, saneamento saiu agora. Isso é excelente para investimento que o estrangeiro gosta. Não é um investimento que o traz para cá por causa de juros, que entra hoje e sai amanhã. Tem muita coisa atraente para acontecer para no Brasil que não tem no resto do mundo. Algumas coisas precisam ser aceleradas. A reforma tributária precisa ser feita. Eu achava que ia entrar em 2019. Não entrou. Mas está para vir. A administrativa. Tem que vir.


Bolsonaro ficou com medo de avançar?

AD - Não sei se ficou com medo. Não gosto de fazer suposições. Se não entrou a reforma administrativa, vai ter que entrar. Até porque tem que haver uma transformação do estado brasileiro, da máquina. Há necessidade de reforma administrativa e tributária. Muita gente fala que quem sucateou a indústria foi o câmbio, o real valorizado. Eu discordo um pouco.


Quem sucateou a indústria?

AD - O câmbio também prejudicou. Mas muito mais do que isso, nosso sistema tributário sucateou a indústria. A complexidade de impostos tira a eficiência principalmente para exportação. É fundamental essa reforma. E vai sair, porque não é só o governo que quer, mas o povo brasileiro está encarando a necessidade. E o Congresso quer fazer. Há quantos anos estamos para fazer isso? Tem também a reforma política. Está no funil porque há conscientização.

As pessoas me rotulam como um cara excessivamente otimista. Mas eu sou otimista quando tem base para isso. E eu vejo muitos motivos para ser otimista. Estou falando sempre pelos fundamentos que você encontra na economia. Está havendo uma condução econômica séria.


Qual é a sua opinião sobre CPMF?

AD - Não vou nem defender nem ser contra. O que eu acho é que há um preconceito com CPMF. Ela é tão ruim quanto qualquer outro imposto indireto. Mas polêmicas já temos o suficiente sobre isso.


Qual a alternativa para desonerar a folha de pagamento?

AD - Não sei. Não vou ficar passando receita para a equipe do Paulo Guedes, que é extremamente competente. Eles têm que buscar alternativa.

Que é importante desonerar a folha, não há dúvida. A quantidade de encargos na folha de pagamento limita muito a manutenção das pessoas na economia formal. Precisa encontrar uma forma de substituir esse tributo por outro ou, de preferência, reduzir despesa, cortar gasto do governo.


O senhor faz a defesa das medidas econômicas, mas há outro lado do governo visto com maus olhos, como questões ambientais e de educação. Como separar isso?

AD - Prefiro analisar o que eu conheço, que é a economia. Eu acho que é isso que deixa o brasileiro mais feliz neste momento. Precisamos gerar emprego e deixar as pessoas crescerem.

E o que faz com que as pessoas possam crescer? É as empresas crescerem, poderem investir mais, contratar mais gente. Se as empresas não crescem e não há investimento suficiente para o motor da economia, é difícil ter emprego e crescimento das pessoas. E acho que o Brasil está fazendo. Está acontecendo.


Mas sem educação as empresas têm dificuldade em recrutar?

AD - Nós, no Instituto Península [organização social da família de Abilio], temos foco em esporte e educação. Estamos fazendo a nossa parte. Não cabe a mim dizer o que precisa ser feito.


Após a eleição, o sr. mandou uma carta a Bolsonaro dizendo que a primeira coisa que ele precisava fazer era reunir o país. Um ano depois, o país está dividido?

AD - Está polarizado. Esquerda e direita. O centro está mais fraco. Em 2019, houve um fortalecimento do Congresso, que passou a ser mais preponderante. Não importa se foi por enfraquecimento do Executivo. Levantaram-se pelo menos duas propostas tributárias no Congresso. E sérias. O Congresso abraçou a Previdência, fez acontecer coisa em que muita gente não acreditava. Acho que hoje há três Poderes funcionando. Isso é característica fundamental do regime democrático.

Vivo muito aqui e na França. Olha o que acontece lá. Foram os coletes amarelos, depois os grevistas. [O presidente Emmanuel] Macron quer fazer uma reforma da Previdência. Não consegue. Nós fizemos. É a reforma dos sonhos? Não sei. Mas fizemos uma reforma tão necessária ao país.


Quando Lula saiu da cadeia, piorou a polarização?

AD - Será? Eu não senti isso. Não senti que aumentou. Senti um pouco mais de barulho. O Lula é carismático, movimenta multidões, mexe com as pessoas. Eu não vejo ninguém com carisma e voz para levantar a esquerda como ele hoje. Não estou vendo força suficiente.

Quando surgir outro líder, talvez ele diminua. Mas não acho que a saída dele da prisão movimentou muita coisa. Não mudou muito. Ele tem aparecido, mas acho que é pouco.


A eleição da Dilma teve seu apoio. Como vê agora?

AD - Apoiei a Dilma em 2010. Minha mulher fez um encontro para mulheres, e a Dilma foi. Se entra o Lula e tenta fazer coisas boas para o país, eu tenho de apoiar. Se entra a Dilma, tenho de apoiar. Eu a apoiei porque o Lula me pediu, porque ele a escolheu. Até achei a escolha estranha. Mas eu não estava lá dentro.

No primeiro mandato dela, eu participei da câmara de gestão. De repente, a coisa começou a não andar. Mas eu não fui criticar nos jornais. Eu sigo o lema de que muito faz quem não atrapalha. Me afastei. Estávamos muito ruins com ela, quase a ponto de bater na parede. Quando veio o Temer, começou a fazer coisas importantes, colocou [Henrique] Meirelles na Fazenda com uma tremenda equipe. Claro que apoiei. Não sou ligado a partido nenhum. Eu amo o meu país.


ABILIO DINIZ, 83

Fundador e presidente do conselho de administração da Península Participações, membro do conselho do grupo Carrefour e do Carrefour Brasil.(Joana Cunha/FolhaPressSNG)
Fonte: Jornal do Brasil
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