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H forte risco de crise climtica j em 2040, aponta relatrio da ONU  

09/10/2018 - Um importante relatrio do painel cientfico da ONU sobre a mudana do clima traa um panorama muito mais severo sobre as consequncias imediatas da mudana no clima do que se imaginava anteriormente. Ele afirma que evitar danos vai requerer transformar a economia mundial em velocidade e escala para as quais "no existem precedentes documentados".

O relatrio, divulgado nesta segunda-feira (8) pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanas Climticas (IPCC), um grupo de cientistas encarregado pela ONU de orientar os lderes mundiais, descreve um mundo no qual a escassez de comida e os incndios nas matas se agravaro, e recifes de corais morrero em escala macia j em 2040 ou seja, dentro da expectativa de vida de boa parte da populao mundial.

O relatrio " um grande choque, e muito preocupante", disse Bill Hare, autor de relatrios anteriores do IPCC e fsico da Climate Analytics, uma organizao de pesquisa sem fins lucrativos. "No estvamos cientes disso h poucos anos". O relatrio foi o primeiro a ser solicitado pelos lderes mundiais sob o Acordo de Paris, um pacto de combate ao aquecimento global assinado por dezenas de pases em 2015.

Os autores do relatrio constataram que, se as emisses dos gases causadores do efeito estufa continuarem ao ritmo atual, a atmosfera vai se aquecer em pelo menos 1,5C ante o nvel vigente na era pr-industrial, at 2040, causando a inundao de reas costeiras e intensificando as secas e a pobreza.

Trabalhos anteriores tinham por foco estimar o dano que seria causado caso a temperatura subisse ainda mais, em 2C, porque esse era o limiar previamente estimado pelos cientistas para os efeitos mais severos da mudana no clima.

O novo relatrio, porm, demonstra que muitos dos efeitos temidos surgiriam abaixo de um aumento de 2C na temperatura, e seriam perceptveis j com um aumento de 1,5C.

Para evitar os danos mais srios, seria necessrio transformar a economia mundial em prazo de poucos anos, afirmam os autores, que estimam que o custo dos danos seria de US$ 54 trilhes (cerca de R$ 199 trilhes).

Mas embora eles concluam que tecnicamente possvel realizar as mudanas rpidas necessrias para evitar um aquecimento de 1,5C, reconhecem que elas so improvveis politicamente.

Por exemplo, o relatrio afirma que impostos pesados, sobre ou licenas dispendiosas para, emisses de dixido de carbono da ordem de talvez US$ 27 mil (cerca de R$ 99 mil) por tonelada em 2100 seriam requeridos. Mas uma medida como essa seria politicamente quase impossvel nos Estados Unidos, a maior economia do planeta, e a segunda maior causadora de emisses de gases causadores do efeito estufa, abaixo apenas da China.

Legisladores de todo o mundo, o que inclui a China, a Unio Europeia e a Califrnia, j criaram leis que impem um preo s emisses de carbono.

O presidente Donald Trump, que zomba das concluses cientficas sobre as mudanas no clima causadas por atividades humanas, prometeu queima intensificada de carvo nas usinas de energia dos Estados Unidos, e anunciou o abandono do Acordo de Paris. E no domingo, o Brasil, o stimo maior emissor de gases causadores do efeito estufa, parecia a caminho de eleger um novo presidente, Jair Bolsonaro, que disse tambm ter planos para abandonar o acordo.

O relatrio foi escrito e editado por 91 cientistas de 40 pases, que analisaram mais de seis mil estudos cientficos. O Acordo de Paris pretendia prevenir um aquecimento de mais de 2C, ante o nvel vigente antes da era industrial.

Por muito tempo, esse era visto como o limiar para danos sociais e econmicos severos causados pela mudana do clima. Mas os lderes de pequenos pases insulares, que temem a alta no nvel do mar, solicitaram aos cientistas que tambm examinassem os danos causados por uma elevao de temperatura de 1,5C.

Na ausncia de aes agressivas, muitos efeitos que eram antecipados para apenas daqui a muitas dcadas comearo a se fazer sentir em 2040, e com alta de apenas 1,5C na temperatura, o relatrio demonstra.

"O que o texto nos diz que precisamos reverter as tendncias de emisses e mudar a economia mundial do dia para a noite", disse Myles Allen, cientista do clima na Universidade de Oxford e um dos autores do relatrio.

Para impedir um aquecimento de 1,5C, aponta o relatrio, a poluio causada por gases do efeito estufa precisa cair em 45% at 2030, ante o nvel de 2010, e em 100% at 2050. O relatrio tambm constatou que, em 2050, o uso do carvo como forma de gerar eletricidade teria de cair dos quase 40% do total gerado, atualmente, para entre 1% e 7%. A energia renovvel, como a elica e a solar, que hoje responde por cerca de 20% da eletricidade consumida, teria de subir para at 67%.

"Esse relatrio deixa muito claro que no existe maneira de mitigar a mudana do clima sem eliminar o uso do carvo", disse Drew Shindell, cientista do clima da Universidade Duke e um dos autores do relatrio.

A Associao Mundial do Carvo contesta a concluso de que deter o aquecimento global pede o fim do uso do carvo. Em comunicado, Katie Warrick, presidente-executiva interina da organizao, apontou para projees da Agncia Internacional de Energia (AIE), uma organizao internacional de anlise, que "continuam a ver um papel para o carvo pelo futuro previsvel".

Warrick disse que sua organizao pretende fazer campanha para que os governos invistam em tecnologia para captura de carbono. Esse tipo de tecnologia, no momento dispendiosa demais para uso comercial, poderia permitir que o carvo continue em uso amplo.

A despeito das implicaes controversas em termos de polticas pblicas, a delegao dos Estados Unidos se uniu s de mais de 180 outros pases, no sbado, para aceitar o sumrio executivo do relatrio, mas teve de caminhar por uma verdadeira corda bamba diplomtica para isso.

Um comunicado do Departamento de Estado americano afirma que "a aceitao do comunicado do painel no implica endosso pelo governo dos Estados Unidos a constataes especficas ou ao contedo subjacente do relatrio".

A delegao do Departamento de Estado se viu diante de um dilema. Recusar aprovao ao documento colocaria os Estados Unidos em contraposio a muitos pases e mostraria o pas rejeitando concluses cientficas estabelecidas no contexto mundial. Mas a delegao tambm representa um presidente que rejeita as concluses da cincia do clima e diversas propostas polticas quanto ao clima.

"Reiteramos que os Estados Unidos pretendem abandonar o Acordo de Paris o mais cedo possvel, na ausncia de termos que sejam melhores para o povo americano", o comunicado afirmou.

O relatrio tenta estimar o custo dos efeitos da mudana do clima. A estimativa de US$ 54 bilhes (cerca de R$ 199 bilhes) em danos, com a alta de 1,5C na temperatura, subiria a US$ 69 bilhes (R$ 255 bilhes) caso a alta da temperatura chegue aos 2C ou os ultrapasse, o relatrio determinou, ainda que no tenha especificado o prazo a que esses custos se aplicam.

O relatrio concluiu que o mundo j est a mais de metade do caminho de uma alta de temperatura de 1,5C. As atividades humanas j causaram alta de temperatura da ordem de 1C da dcada de 1850 o incio da queima industrial de carvo em larga escala at agora.

Os Estados Unidos no esto sozinhos em rejeitar a reduo de emisses necessria a impedir os efeitos mais nocivos da mudana no clima. O relatrio concluiu que os compromissos de reduo de emisso de gases causadores do efeito estuda assumidos nos termos do Acordo de Paris no bastaro para evitar o aquecimento de 2C.

O relatrio enfatiza o potencial papel de um imposto sobre as emisses do dixido de carbono. "Determinar um preo para as emisses de carbono tem papel central na promoo da mitigao", o relatrio conclui. O texto estima que, para ser efetivo, o preo teria de variar entre US$ 135 (R$ 499) e US$ 5,5 mil (R$ 20 mil) por tonelada de poluentes de carbono, em 2030, e entre US$ 690 (cerca de R$ 2.500) e US$ 27 mil (R$ 99 mil) por tonelada em 2100.

Em comparao, no governo Obama, economistas da administrao estimaram que o preo apropriado pela emisso de poluentes seria da ordem de US$ 50 (R$ 185) por tonelada. No governo Trump, esse clculo foi baixado para US$ 7 (R$ 25) por tonelada.

A Americans for Prosperity, uma organizao de propaganda poltica financiada pelos bilionrios americanos Charles e David Koch, promotores de causas libertrias, ajuda a bancar campanhas contra polticos que apoiam a criao de impostos sobre poluentes.

"Os impostos sobre poluentes so veneno poltico, porque elevam o preo da gasolina e o da eletricidade", disse Myron Ebell, que comanda o programa de energia no Competitive Enterprise Institute, uma organizao de pesquisa sediada em Washington e bancada por empresas. Ele comandou a equipe de transio do governo Trump na Agncia de Proteo Ambiental (EPA).

O relatrio detalha os danos econmicos esperados caso os governos no imponham medidas de reduo de emisses. Os Estados Unidos perderiam cerca de 1,2% de seu Produto Interno Bruto (PIB) a cada grau Celsius de elevao da temperatura.

Alm disso, o texto afirma, os Estados Unidos, acompanhados por Bangladesh, China, Egito, Filipinas, ndia, Indonsia, Japo e Vietn, abrigam 50 milhes de pessoas que estaro expostas aos efeitos das inundaes costeiras mais graves, em 2040, caso ocorra um aquecimento de 1,5C.

Com aquecimento de 2C, o relatrio prev "evacuao desproporcionalmente rpida" de pessoas, nos trpicos. "Em algumas partes do planeta, fronteiras nacionais se tornaro irrelevantes", disse Aromar Revi, diretor do Instituto Indiano de Assentamentos Humanos e um dos autores do relatrio. "Pode-se erguer uma muralha para tentar conter 10 mil e 20 mil, ou at um milho de, pessoas. Mas no 10 milhes de pessoas."

O relatrio tambm mostra o cenrio em que governos no consigam evitar a alta de temperatura de 1,5C. O planeta poderia se aquecer ainda mais que o previsto, superando os 2C, e em seguida, por meio de uma combinao entre corte de emisses e uso de tecnologia de captura de carbono, seria promovida uma queda de temperatura para abaixo do limiar do 1,5C.

Sob esse cenrio, alguns danos seriam irreversveis, aponta o relatrio. Todos os recifes de corais morreriam. Mas o gelo marinho, que desapareceria em funo do aquecimento, retornaria com a queda das temperaturas.

"Para os governos, a ideia de deixar que a temperatura estoure a previso e depois voltar para um nvel inferior atraente, porque dessa forma no precisariam promover mudanas to rpidas", disse Shindell. "Mas isso teria muitas desvantagens."

Coral Davenport
Fonte: Folha de S. Paulo
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