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Por causa de incndio em laboratrio, aluna do Cear descobre material que pode conter vazamento de petrleo  

05/07/2018 - Natural do distrito de Ema, a seis quilmetros de Iracema, municpio com pouco mais de 13 mil habitantes no interior do Cear, a estudante de 19 anos Myllena Cristyna da Silva fez uma descoberta cientfica aps provocar um incndio no laboratrio da escola onde cursou o ensino mdio. O incidente resultou em uma pesquisa de reciclagem de isopor e na gerao de um material que pode ser usado para blindar o vazamento de petrleo no mar, contribuindo para a reduo de um dos maiores problemas de poluio ambiental em todo o mundo.

A estudante desenvolveu a pesquisa ao ingressar no Instituto Federal do Cear (IFCE) de Limoeiro do Norte, no curso tcnico em Meio Ambiente.

"O diferencial do trabalho dela que alm de propor uma nova rota de destinao final para os resduos de isopor, e isso j em um ponto positivo relacionado a questo ambiental, ela tambm gera um novo produto no mercado que vai trabalhar com a blindagem ou contingncia de vazamento de petrleo", comenta o orientador e professor de Gesto Ambiental do IFCE de Limoeiro do Norte, Phylippe Santos.

Neste ano, ela participou pela segunda vez da Intel ISEF (International Science and Engineering Fair), maior feira de cincias do mundo, nos Estados Unidos, de onde voltou no ltimo domingo (20). Com o projeto, ganhou duas bolsas de estudo para universidades do Arizona.


Incndio

Enquanto fazia o experimento com isopor e solvente no laboratrio da escola, Myllena se distraiu conversando com amigos e deixou a estufa queimar. O incndio atingiu parte do local, quando a adolescente, desesperada, levou o experimento pia. O choque trmico causado pela gua formou uma espcie de cristal, e a partir de pesquisas com esse cristal, ela chegou ao material que pode ser usado em embarcaes de petrleo para evitar vazamento e a consequente poluio da gua.

A estudante escolheu trabalhar com isopor porque precisava participar da feira de cincias da escola. "No incio do ano trocaram os ares-condicionados e juntou muito isopor na escola. A professora falou que isopor era sensvel a solvente, e como tinha que fazer o projeto, reaproveitei o material que j tinha, mas no sabia o que ia produzir", conta.

Depois do incndio, a punio para Myllena foi ficar afastada por um ms do laboratrio. No entanto, a pesquisa ficou parada por quase um ano. Segundo ela, a escola no tinha equipamentos para desenvolver os testes.


Pesquisa

Se trata de um ciclo de reutilizao do poliestireno expandido, conhecido popularmente como o isopor. A partir da retirada desse material do meio ambiente, a estudante conseguiu desenvolver cristais lisos e porosos. Submetendo esses materiais a uma bactria, a jovem cientista diminuiu o tempo de decomposio do isopor no planeta - de cerca de 150 anos - para sete meses.

Myllena explica por que o produto desenvolvido com a tcnica tambm impacta na poluio do mares com petrleo. "Todos os dias acontecem viagens de navio petroleiro, e obrigatrio fazer uma lavagem pra retirar o material impregnado no lastro, para no influenciar na prxima carga. A gua utilizada pra isso a gua o mar, que poluda com o petrleo. Esse material vai servir como pelcula protetora do lastro, repele 95% do petrleo que ficava impregnado. Mesmo com a lavagem, as empresas no perdem material, nem ele vai pro meio ambiente", detalha.

Alm disso, a pesquisa desenvolveu um ciclo completo de reutilizao do isopor, material que comumente descartado de forma irregular no meio ambiente.

Com a bactria usada para decompor plsticos, Myllena percebe que, na reao, excretada a prpria matria-prima de que feito o isopor e outros tipos de plstico: o leo de estireno. Isso significa que, em vez de ser descartado de maneira imprpria, um isopor usado poderia ser reaproveitado pela prpria empresa fabricante e submetido ao processo descoberto pela cientista, para gerar outros materiais, diminuindo o custo da empresa.

"Um dos maiores impactos a questo ambiental, porque resolve vrios problemas ambientais dentro de uma s pesquisa. O isopor, que demora pra degradar, nunca sabemos o que fazer com ele e acaba indo pro meio ambiente. Quando queimado, libera gases poluentes, um dos principais causadores de poluio", comenta a jovem.
A pesquisa de Myllena tambm tem impactos econmicos. "O segundo ponto resolver um dos problemas considerados um dos maiores problemas ambientais: o derramamento de petrleo no mar. Isso gera impacto ambiental e econmico, o petrleo um material carssimo, o derramamento causa prejuzo enorme", ressalta.

Ela foi procurada para patentear o produto, mas recusou por no considerar a proposta de diviso de royalties justa.


Impossvel

Filha de pai agricultor que estudou at o ensino fundamental, e de me domstica, com ensino mdio, Myllena nunca imaginou que pudesse alcanar uma realidade to distinta.

Para os pais, ver a filha realizando tamanho feito algo inacreditvel. "Estou conquistando coisas que, pela nossa realidade, as pessoas julgam impossvel. No sou filha de advogado ou mdico. Eles, que no tiveram oportunidade de estudar, vendo eu conquistar duas bolsas numa faculdade nos EUA%6 enchem os olhos dgua. Liguei pra minha me e disse `passei, vou pros EUA, ela comeou a chorar, no conseguia dizer nada no telefone", reflete a estudante.

O interesse pela cincia comeou ainda nos primeiros anos da escola, quando conheceu as feiras cientficas. "No sabia como era, achava que era como na TV, com vulces explodindo%6", conta.

Vencendo as feiras estudantis do interior, ela se reconheceu e abraou o prprio caminho. "Na feira estadual, que era um nvel mais avanado do que a realidade que eu tava acostumada, foi como um incentivo. Foi onde vi que era aquilo que queria pra minha vida, que eu amava cincias e feiras cientficas."

Myllena pretende cursar uma universidade pblica no Arizona a partir do prximo ano, que lhe dar ajuda de custo para permanecer no local. "Minha av t aqui dizendo que no quer que eu v, mas vou sim, meu sonho", diz, entre risos.

24/05/18
Cinthia Freitas

Fonte: Portal G1
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